Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

História de Vida - 40



14_11_2008   a  18_05_2012
Não há caminho sem dor para a transformação dentro de nós mesmos. Hoje sinto essa dor.
Antes de encontrarmos o verdadeiro Amor, vivemos campos armadilhados que nos minam as crenças, a confiança, rebentam ilusões, abrem feridas que nos deixam cicatrizes… e que condicionam a forma como vamos ou não confiar nos sentimentos das pessoas.

Um ano e meio após terminar uma relação que durou 12 anos, conheci outra pessoa. Éramos apenas amigos, falávamos sobre as nossas vidas, trocávamos conselhos, apoiávamo-nos e apesar de negarmos muito tempo, nasceu o amor entre nós. Ele é a pessoa mais especial que eu conheço, por quem tenho uma admiração e respeito enormes, a pessoa que me conhece inteira, o melhor e o pior de mim! Apesar disso, e porque eu tenho 2 filhos da relação anterior, fomos sempre cautelosos porque não queríamos magoar-nos ou os meus filhos. Quisemos sedimentar os nossos sentimentos para depois avançarmos para uma vida a 4, na construção efetiva da nossa história.

Ele era o espelho onde eu me refletia; aquele que apenas refletia o meu verdadeiro eu; a imagem que hoje procuro dentro de mim e não encontro.

Os últimos 3 anos e meio foram vividos lado a lado, partilhando dias, noites, confissões, fantasias, receios e sonhos! Foram dias luminosos em que vivemos momentos lindos, de ternura, amor, paixão, de um envolvimento tão, tão puro, que eu julgava impossível. Sentia por vezes que não era possível encontrar alguém que me completasse por inteiro! Fui tão feliz que cheguei a duvidar que fosse real. Via-me através dele. E sei que ele sentia o mesmo, olhava nos meus olhos e se via também. Bastava um olhar e ele sabia o que eu estava a pensar. Fomos melhores pessoas ao lado um do outro.

Foi ele quem me mostrou o lado mais belo de mim mesma, a mulher interessante e corajosa que eu desconhecia ser. Fez-me sorrir e ousar desejar ser a sua mulher o resto da vida (apesar de ele sempre me dizer que eu era muito independente e jamais casaria de novo… mas não sou assim). Trouxe-me a paz e a tranquilidade e devolveu-me a auto-estima. Trouxe alegria e amor também aos meus filhos que o adoravam! Os meus filhos foram aliás, quem percebeu o quanto gostávamos um do outro e nem precisamos dizer nada…

Era como se nos conhecêssemos de uma vida inteira!
Em 3 anos fizemos juntos, coisas lindas, tudo valia a pena só para estarmos juntos 5 minutos e trocarmos um beijo ou um abraço. Cada manhã havia um sorriso, um sms, uma flor, um beijo…

Também vivemos dias difíceis, duros, momentos de angústia e dor. O nosso amor fora posto à prova tantas vezes. O passado teimava sempre em voltar, e se nos aguentámos juntos tanto tempo a lutar por sermos felizes e construirmos a nossa história, um dia fraquejámos. Desistimos. Estávamos cansados de lutar e apesar de ele sempre ter permanecido a meu lado, apesar de o amar como não tinha amado antes ninguém, pus o seu bem-estar acima de tudo e afastei-me, dei-lhe espaço para poder escolher o seu caminho e ser feliz.

Afastar-me da pessoa que me completava e amava foi das decisões mais duras da minha vida. Nesses meses trocávamos e-mails, almoçamos algumas vezes, fizemos km para nos vermos 10 minutos…mas não estávamos juntos de facto. Nem para tudo encontramos explicações e às vezes dizia-me que o nosso amor não era deste tempo, desta dimensão….

Apesar disso, tenho dele as melhores recordações. Ele é uma pessoa maravilhosa, sinto que é ele é o amor da minha vida, metade de mim, o lado que me completa junto com os meus filhos.

Mas nestes 3 anos, perante alguns obstáculos que fomos encontrando, perante o receio de que não soubéssemos lidar com as adversidades, com medo de não dar certo e voltar a falhar um casamento, recusei assumir o quanto o amava e desejava estar a seu lado.

Do meu passado, voltavam por vezes questões relacionadas com o meu ex-companheiro que nos destabilizavam, que abalavam a harmonia do nosso relacionamento. Por isso, no último ano procuramos distanciarmos. Mantivemos sempre alguma proximidade; havia sempre um almoço, um sms, um e-mail, a alegria pelo sucesso um do outro, uma palavra de consolo nos momentos difíceis, um abraço, um olhar… e por vezes, caíamos no abismo de um beijo que nos restaurava a alma. Escrevemos o verbo amar no corpo um do outro vezes sem conta, no silêncio do nosso quarto, no vazio de uma praia no inverno, ou onde fosse... aquele momento era só nosso!
Ele fazia-me bem. Fazia-me voltar a ser criança e acreditar nos sonhos. Dava-me paz. Força e coragem.

Há escassos dias, soube que ele está com outra pessoa. Que está numa relação muito recente, mas da qual não me falou. Senti-me traída é verdade. Apesar da dor que isso me causou, da tristeza, não consigo odiá-lo porque tenho dele as melhores recordações de todos os nossos momentos vividos. E foram tantos…

Mas sei hoje também que estou grávida de 7,5 semanas de um filho dele, um filho nosso, o filho que ele tanto queria ter…
Após dar-lhe conhecimento desse fato, respondeu-me apenas que esta criança não podia nascer porque já não estávamos juntos… Compreendi e aceito, mas dói-me muito esta decisão. E internamente, estou numa luta… Como alguém que sempre disse amar-me e tanto o demonstrou em apenas 3 ou 4 semanas se envolve com outra pessoa, e esquece tudo o que vivemos? Rejeita um filho?

Apesar de consciente de que um filho deve ser um projeto de 2 e não apenas a decisão de um, consciente dos constrangimentos que tudo isto causa havendo agora outra pessoa a quem ele está ligado, não deixo de me sentir profundamente desolada por desta vez ele não estar a meu lado como sempre esteve. Pergunto-me se me deixou de amar assim…? Se esqueceu tudo o que vivemos e lutamos para poder ficar juntos…?

Disse-lhe que não iria levar esta gravidez pela frente se ele não quisesse; não quero que julgue que vou prendê-lo com um filho que ele agora não quer ter. E não o pretendo fazer, mas a verdade é que olho a eco e vejo o meu filho ainda tão pequenino ali… a concretização do amor que nos uniu. Vejo o meu corpo mudar todos os dias e queria que ele se sentisse contagiado com esta mesma alegria até porque nunca foi pai.

No meu interior, apesar de não lhe ter dito, quero muito muito ter este bebé, lutar pra que nasça saudável e poder vê-lo crescer ao lado dos meus filhos. Com ele ao meu lado ou não. Queria que ele desse uma oportunidade a esta criança e apenas a amasse; nada mais. Queria chamar-lhe “Salvador” se fosse um menino e “Sara” se fosse menina…

Sinto-me perdida, aterrada perante a ideia de decidir fazer um aborto do filho do homem que eu amo, que me amou e sinto que não posso forçá-lo a aceitar também a minha posição. Mas em nenhuma das situações, não sei se saberei (ou saberemos) lidar com esta decisão o resto das nossas vidas.

Aquele que podia ser um momento emocionado e feliz nas nossas vidas, o inicio de uma nova etapa, tem sido um conjunto de sentimentos que nem sempre consigo identificar com mistura de amor, decepção, alegria, angustia, medo…lágrimas, dor.

Tínhamos tantos sonhos juntos…. e hoje sinto que é tarde; que não lhe disse enquanto era tempo o quanto o amava e que era a seu lado que queria ficar, acontecesse o que acontecesse.

Olho um homem que desistiu de nós, mudou até, está diferente…
Pergunto-me se este filho não nos deveria fazer olhar de novo para tudo o que vivemos, para aquilo que dia após dia construímos, e dar uma oportunidade a nós a e ele próprio – à nossa família -.  A vida é irónica…. E esta é de longe a forma mais triste com que poderíamos por um ponto final no nosso Amor.

Amo-o com todo o meu ser, e respeito a sua decisão, mas como posso eu ver a pessoa mais importante da minha vida (obviamente não falando dos meus filhos) partir, ir embora e nada fazer, ou sem lutar uma última vez por nós? Como posso ignorar o fato de ter o nosso filho a crescer no ventre e não lhe dar a hipótese de vir ao mundo?
Sinto-me perdida…

Terça-feira, 15 de Maio de 2012

História de Vida - 39

Desde pequena que a minha vida tem sido um inferno. Tudo isto porque a minha mãe sempre quis ter um filho e não uma filha. Sofri de maus tratos, tantos psicológicos como físicos. Aos 7 anos cheguei a ir para o hospital com a cabeça negra. A minha mãe nunca me aceitou, sempre me desprezou e não havia uma dia que não gritasse comigo. 

Quando o meu irmão nasceu tudo se tornou pior. Tinha de fazer tudo para ele, cuidar dele, como se fosse a sua empregada. Também desde pequena que sou que faço as tarefas domésticas, ás vezes sou obrigada até a repeti-las porque a minha mãe não gosta de como ficou. Sempre fui renegada e se não fosse o meu pai acredito que teria sido dada para adopção. 

É horrível ver o carinho, as oportunidades e a vida que o meu irmão tem e olhar para a minha e sentir nojo. Hoje com 18 anos, não tenho amigos, não tenho namorado, sou super reservada, fechada e tímida. Culpo a minha mãe por isso e todos me julgam quando digo que odeio. Tenho de estar no curso que ela quer que eu esteja, seguir o curso que ela quiser e se quiser. Não posso sair, só se ela estiver bem-disposta, não tenho dinheiro, apenas para almoçar na escola e ás vezes nem para isso chega. Estou farta desta vida e já me tentei suicidar mais que uma vez. 

A única pessoa que me dá força ainda é o meu pai, que já ameaçou divorciar-se dela e ir viver comigo para outro país se for preciso. Choro várias vezes, tenho pesadelos muitas vezes com os dias em que ela me atirava cadeiras e bancos para cima de mim. 

Já estive para a denunciar mas nunca tive coragem e nisso o meu pai não me apoia. Acho que se contasse a alguém não iriam acreditar pois á frente das pessoas ela faz de conta que é muito querida comigo. Isso irrita-me e enoja-me completamente. Não sei quanto tempo mais vou aguentar isto.

Quarta-feira, 9 de Maio de 2012

História de Vida - 38

Tenho 20 anos, nunca entrei numa discoteca e são raras as vezes que saio à noite. Não é que os meus pais não deixem, eu simplesmente não quero deixar a minha mãe sozinha enquanto o meu pai está lá, não se sabe bem onde ou o que está a fazer. O certo é que chega sempre a casa em más condições e a criar as discussões mais ridículas enquanto parte pratos ou o que tiver mais à mão. Sempre foi assim...Desde que me conheço. Lembro-me de ver a minha mãe a gritar enquanto a minha irmã levava chicotadas nas costas com um cinto. Não admira que ela tenha casado com 19 anos...a vida nesta casa é um inferno com a presença do meu pai. 

Eu, por outro lado...nunca quis casar. Nunca acreditei no casamento. Nunca acreditei no Amor. Nunca tive melhores amigos...Tudo isso acaba. E eu tenho demasiado medo de finais. Medo de desilusões....medo de ser ignorada. Tal como o meu pai sempre me fez. Nunca me deu um olá...nunca me deu os parabéns no meu aniversário. Nunca me deu um beijo na cara. Nunca me abraçou. Nunca perguntou "porque estás a chorar?". Passa dias sem me dirigir a palavra. Tudo o que faz é impor ordens...

Apesar de tudo, o que mais me magoa é o facto de a minha mãe depender totalmente dele. Até para ir ao café. O meu pai sempre ficou com o salário da minha mãe...e nem sequer a deixou tirar a carta. Eu desejo com todas as forças um divórcio. Mas sei que a minha mãe não conseguiria viver apenas com o salário mínimo...

E apesar de ela não possuir qualquer problema em termos de saúde física, padece de uma depressão, e eu simplesmente não consigo estar com meus amigos sem pensar nela e no quão só se sente. Sei que é uma loucura...mas penso muitas vezes no dia em que ela falecer...ela é a única pessoa que confio. E sempre que saio de casa sinto a culpa a apoderar-se de mim. Afinal...ela é a minha Mãe! A minha obrigação é cuidar dela...tal como ela sempre cuidou de mim.

História de Vida - 37

Desde os meus 10 anos que vivo um amor proibido. Uma paixão com a qual nunca consegui lidar em condições. Foi sempre grande de mais para poder explicar, forte de mais para eu a poder controlar.

Tornei-me grande amiga deste meu amor. Nunca soubemos explicar esta amizade única que tínhamos um pelo outro. Uma cumplicidade que nunca tive com ninguém.

Durante dois anos fui a princesinha mais feliz deste mundo... mas o mundo, decidiu que não era o nosso tempo, decidiu dar-nos batalhas que nós não conseguimos vencer. E eu vi o meu amor a ir-se abaixo. Vi o brilho daquele olhar a desvanecer. Para bem dos dois, tive de me afastar. Guardei todas as memórias, fotografias, objectos, recordações numa caixa. Engoli o orgulho e todos os dias limpei as lágrimas para sair a rua. Durante quase dois anos não lhe pude falar, contactar... nada. Simplesmente passar por ele na rua e tremer. Fazer de conta que o coração não me ia fugir pela boca.

Há uns meses, esqueci tudo e todos, levantei-me e fui ter com ele. Pedi-lhe para falar. Falamos. A festa acabou, arrumou-se tudo, toda a gente foi para casa, e nós ficámos naquele banco, sentados a falar. Horas. E falamos de tudo. Os dois anos foram esquecidos e a cumplicidade era a mesma. O amor? Esse quis escondê-lo, não fosse a sociedade tornar a julgar-me por um erro que dois adolescentes comentaram, quando eram novos de mais para saber tomar decisões.

E os últimos meses foram passados a tentar enganar-me a mim própria, a tentar esconder. E a ir enchendo o coração com as pequenas coisas. A relembrar histórias. A ouvir as músicas de outrora.

O sentimento é o mesmo. A cumplicidade é a mesma. E a sociedade? Essa é a mesma, e teima em não nos aceitar.

Hoje tomei das decisões mais difíceis, mas mais importantes da minha vida. A nossa amizade é o mais importante. E é essa que vamos guardar, manter e defender!

Sei, sem dúvida alguma que ele será para sempre o grande amor da minha vida. Nunca serei capaz de amar alguém como a ele. E isso nunca vai mudar. Isso nunca ninguém me vai tirar. Talvez um dia, chegue o dia certo, a altura certa. E quando nos encontrarmos vamos saber disso. E Nada nem Ninguém nos vai parar.

Custa tomar uma decisão assim. E as lágrimas ainda não pararam. Sei que podia ter feito mais, podia ter sido uma pessoas melhor. Mas talvez um dia... talvez noutra vida...

Só tu sabes a importância de um abraço. Só tu sabes como me fazer rir mesmo quando estou a chorar e estou chateada contigo. Aconteça o que acontecer,meu amor, levo-te comigo.

Amo-te meu príncipe protector.
Até sempre =)

História de Vida - 36

Durante anos estive perdidamente apaixonada por um homem casado. Mantive esse relacionamento, como se tratasse de um veneno entranhado no corpo, durante anos.

Tive momentos de angústia extrema e de felicidade completa. Angústia quando o imaginava nos braços da esposa, felicidade quando o tinha em meus braços.

Loucura. Loucura que me levou os melhores anos da minha vida. Pois essa relação começou quando tinha dezoito anos e terminou quando eu tinha 35.

Terminou no momento em que o meu pai adoeceu com um cancro maligno. Situação, que devido à minha formação religiosa encarei como um castigo de Deus perante a loucura deste amor. Castiguei-me durante meses, com um enorme sentimento de culpa, apanhei uma depressão e sofri muito, como não desejo a ninguém.

Desde então, arranjei forças para pôr termo a um relacionamento de anos.
Tenho momentos de tristeza pois sinto a sua falta e momentos de ódio pela juventude que podia ter tido e da qual abdiquei. No entanto sei que esse senhor casado me ama e me persegue querendo continuar a relação que antes mantivemos.

Não quero. Libertei-me desse amor….e considero-me a pessoa mais burra do mundo por ter acreditado que um dia seria só meu. Não como propriedade, pois ninguém é dono de ninguém. Mas que tivesse a coragem suficiente de pôr termo a um casamento que não o fazia feliz.

Hoje sou uma mulher muito mais fria, muito mais racional e não deixo que o amor me volte a ferir.

Desculpem o desabafo…foram muito poucas as pessoas com quem partilhei este segredo de anos.

Segunda-feira, 23 de Abril de 2012

História de Vida - 35

Sempre fui considerada uma criança, adolescente e mulher muito forte, com ideias fixas e muito determinada, mas com o passar dos anos percebi que todos esses adjectivos foram perdendo significado naquilo que sou hoje.

Conheci um homem que me fez acreditar ser o homem da minha vida, o homem que desejava ser o pai dos meus filhos... Mas a verdade é que esse mesmo homem fez com que todos aqueles adjectivos que tantas vezes me descreveram deixassem de fazer sentido...

Fui traída, humilhada e desrespeitada vezes sem conta, mas fiquei sempre ao lado dele... Descobri mentiras atrás de mentiras, mas fiquei sempre ao lado dele...quase como se tivesse perdido o verdadeiro sentido do errado e do certo...

Hoje, olho para trás e estes 6 anos de vida em comum fazem-me olhar para ele e perceber que nunca o conheci, mas não sou capaz de o deixar... de virar as costas e seguir a minha vida... porquê?!?

Apesar de toda esta infelicidade, este mesmo homem, deu-me o que de melhor tenho na vida, o meu filho!!!! Percebi que deixei de ser uma mulher forte para acima de tudo, ser uma mãe forte!!!

Por muito difícil que seja compreender, isto é possível, todos os dias da minha vida.. Não sei como vai ser a minha vida logo, amanhã ou daqui por meses, anos.. mas sei com toda a certeza que sou logo, amanhã, daqui por meses, anos, uma MÃE FORTE e DETERMINADA!!!

Sexta-feira, 13 de Abril de 2012

História de Vida - 34

Tenho 29 anos. Actualmente considero-me uma pessoa razoavelmente feliz. Mas para ter a felicidade na sua plenitude teria de ultrapassar certos traumas que me perseguem. O meu pai, toda a sua vida foi emigrante e como consequência fomos criados pela minha mãe. Tenho 2 irmãos mais novos. A minha mãe nunca foi de afectos. Era (e é) uma pessoa fria que vivia no seu mundo, ao qual nunca quis pertencer. Ela era doméstica e passava os dias em casa. Aos poucos foi-se isolando das pessoas. Não se entendia com a família do meu pai e nessa família também ninguém gostava dela. Eu, que tinha traços da família do meu pai, fui desde cedo diferenciada. 
 
Entretanto, ela chegou a um ponto que se desleixou completamente. Tanto a aparência como as suas tarefas domésticas. Fomos criados num ambiente pouco familiar, o desleixo era total e o respeito era igual a nada. Lembro-me de ser gozada na escola por ir com roupas sujas. Era um facto, ela nunca se importou connosco. Embora o meu pai ganhasse razoavelmente bem, faltava tudo. Nunca passei fome, mas o meu jantar foi, muitas vezes, um copo de leite ou um pedaço de pão. Apenas e só. Tudo o resto era trancado e apenas ela tinha acesso. Chorei muito no escuro do meu quarto. Lágrimas de dor, lágrimas de revolta, de indignação… Só perguntava “Porquê?”
 
Nos meus 29 anos de existência não me lembro sequer de um gesto de carinho, um abraço, um beijo, nada... Apenas existe dentro de mim um vazio de afectos. Sou carente, é a realidade. Ao contrário disso, lembro-me das valentes tareias por tudo e por nada. Lembro-me de gritar muito.... De sentir dores, de ficar pisada. Enfim... A maior dor era a do meu coração que ainda não sarou.
 
Hoje, tenho traumas e os devidos efeitos secundários disso. Eu entendo perfeitamente que coisas como em situações de stress, fico a suar por todos os lados, a minha barriga incha, o meu cabelo cai, sou bastante sensível, choro com uma facilidade enorme, sou muito nervosa, tudo isto é resultante da pressão psicológica a que fui sujeita. 
 
Quando cheguei à adolescência, ganhei bastante acne, tinha os dentes tortos e uma mãe que nunca quis saber- tudo a ajudar. Fiquei bastante retraída porque tinha vergonha de mim. Durante muito tempo o meu olhar era sombrio e cabisbaixo. Ela não me deixava sair, divertir-me, nem que fosse ao Domingo de tarde, quanto mais à noite. Hoje sinto que a melhor fase da minha vida passou-me completamente ao lado. Perdi os meus amigos. Estava triste, depressiva e só.


Ultimamente, antes de casar, raramente nos falávamos, vivíamos na mesma casa mas como se uma barreira nos separasse e sinceramente preferia assim porque ela ofendia-me muitas vezes. Deixei de lhe falar mas tinha uma enorme angústia. Gostava que a minha mãe fosse a minha melhor amiga, não aquela pessoa que me transmitia ódio só pelo olhar. Gostav que fosse como a mãe da prima ou da colega da escola. Não era… Era tudo menos mãe, tudo menos um porto de abrigo, tudo menos o meu colo.
 
 Este triste passado deixou marcas, muitas marcas. Sou ansiosa, desenvolvi uma defesa, um grande muro à minha volta. E essa defesa é incompreendida na maior parte das vezes. Sei que ninguém tem culpa mas às vezes lido mal com certas personalidades. Sou directa e tenho dificuldade de disfarçar o que me vai no pensamento. Sinto que sou uma pessoa revoltada e isso tem prejudicado a minha imagem perante os outros. Só queria que entendessem que isto faz parte de um passado difícil e que apenas quero ser FELIZ. Não quero que me julguem, porque toda a vida me julgaram e me puseram com a auto-estima na lama. 
 
Felizmente, tenho o meu marido, é a pessoa mais importante da minha vida. Embora, tenha pouca paciência, sei que jamais irei encontrar alguém como ele. Alguém que me tenha feito sentir que sou especial e importante. 
 
Hoje, queria ter filhos mas falta-me a coragem para dar esse passo. Tenho medo, muito medo. Não me sinto minimamente preparada e já sinto pressão dos familiares devido ao facto de já estar casada há algum tempo. Não quero nem gosto dessa pressão. Só quero PAZ. Sinto que estou a melhorar a minha auto-estima mas também sinto que ainda são passinhos de bebé.


Há mulheres que não nascem para ser mães…. E a minha era uma delas, tenho a certeza.